Ousei com o bacalhau e me dei bem

Outro dia, mais precisamente durante a Semana Santa, fui com minha mulher a um restaurante português. A intenção era comer um bom bacalhau acompanhado de um bom vinho. E aproveitaria para exercitar a atividade de blogueiro dedicado a desvendar o universo de Bacco, a aventura que recém comecei neste espaço. Minha mulher também está empenhada neste exercício de aprendizado sobre vinho, embora ela ainda seja mais dos sucos de frutas e bebidas alcoólicas docinhas.

Bem, voltando ao bacalhau, um prato que sempre apreciei e que, como o vinho, tem as suas peculiaridades, decidi que queria acompanhá-lo com um vinho correto (se é que isso existe). Eu tinha lido aqui no V de Vinho uma entrevista do Marcelo Copello, um dos jornalistas brasileiros mais importantes do mundo do vinho, dando dicas sobre bons vinhos para acompanhar o bacalhau.

Uma coisa que ele falou é que não dá para pensar no bacalhau como peixe na harmonização com vinho, porque trata-se de prato de sabor intenso e que pede vinhos de bom corpo, como um tinto malbec. Já comi bacalhau acompanhado (pasmem!) de caipirinha, de cerveja (como bom cervejeiro que fui) e de vinho de mesa (aquele de garrafão). Confesso que não me lembro se essas experiências foram boas ou ruins – acho que não estava preocupado com isso –, mas seguramente em algumas delas a bebida “matou” o sabor do bacalhau e, em outras, o bacalhau deve ter “escondido” o sabor da bebida. Escolhemos, minha mulher e eu, um restaurante especializado no prato e reconhecidamente bom.

Não havia erro quanto ao bacalhau. Apenas ficamos um pouco em dúvida, ao olhar o cardápio, se pediríamos um bacalhau à moda de Braga ou a Gomes Sá, ou ainda algum outro tipo, todos eles sugestivos e aparentemente apetitosos. Finalmente, escolhemos postas de bacalhau acompanhadas de brócolis. Como sempre tenho feito desde que decidi enveredar pelo mundo do vinho, pedi ao maître sugestão da bebida para acompanhar o prato escolhido e me ocorreu o malbec, conforme a matéria que tinha lido. A resposta: “Pode ser um vinho Verde [típico de Portugal, a terra do bacalhau por excelência], um cabernet sauvignon ou um carménère [recentemente soube que é uma das uvas símbolo do Chile]…”

Perguntei sobre malbec e o restaurante não tinha. Achei instigante provar o carménère, que tinha sido definido como vinho de boa intensidade, mas não muito tânico (que é quando o vinho amarra a boca). Achei que combinaria bem com o bacalhau pedido. Minha mulher me acompanhou e acertamos. O carménère mostrou-se um vinho fácil de beber, mais suave que um cabernet sauvignon e o próprio malbec, mais próximo de um merlot. E caiu perfeitamente com o delicado bacalhau em postas com brócolis.

Me surpreendi positivamente e, depois, ao pesquisar na internet sobre a harmonização entre carménère e bacalhau, me chamou a atenção como poucos especialistas ainda sugerem o casamento.

Na segunda-feira seguinte, como é de praxe, os comentários sobre o feriado rolaram na rodinha do escritório. Contei minha experiência, embora saiba que alguns ainda torçam o nariz quando surge um comentário sobre vinho – sei, porque eu também era assim antes de começar a provar com prazer a bebida e de descobrir que não precisa ser um expert para apreciá-la.

Um colega também apreciador de vinhos questionou a combinação que fizemos, defendendo que os vinhos portugueses – inclusive os tintos – são os que melhor sabem acompanhar o bacalhau. Claro que são, mas essa é uma visão tradicional e conservadora que tenta apenas não errar. No final,  o convenci a ousar pelo menos uma vez e a provar essa nossa descoberta. Ele sabe que eu escreveria sobre isso e aceitou o desafio de depois contar como se saiu.
A lição que tirei disso foi que no mundo do vinho há espaço para testes e, a partir disso, grandes descobertas. O vinho não pode roubar o sabor do prato, deve completá-lo – e vice-versa. É preciso tomar alguns cuidados mínimos para não gastar com um vinho claramente impróprio para determinado prato.

Talvez não sejam todos os malbec (a uva marca registrada argentina) e os carménère (uva característica chilena) que combinem com pratos de bacalhau – que igualmente são variados em graduação de sabor e tempero. Mas atesto que naquela minha refeição, o típico chileno caiu como uma luva. E como “desespecialista”, recomendo.

E aí me veio a máxima ouvida numa entrevista do superenólogo francês Michel Rolland: “O melhor vinho é aquele que você toma e gosta.”

Saúde!
Patrício

PS: Gerson, obrigado pela leitura. E as degustações estão na minha alça de mira para posts futuros. Abraço.

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