Algumas descobertas brasileiras

8 de setembro de 2012

Olá, amigos não especializados do vinho.
Demorei, mas por um motivo justo. Fiz um passeio pela Serra Gaúcha para enfrentar um pré-conceito que carregava sem confessar. Como contei em meu post de estréia, minha atração pelo vinho e pelas coisas do vinho nasceu numa viagem a Buenos Aires. E aí, a impressão que fica para o iniciante é que o vinho de lá, do Chile e dos países com tradição na bebida, é melhor do que os daqui.
Já vinha testando o produto nacional em casa e em restaurantes, porque para um crítico, ainda que confessamente “desespecialista”, é preciso provar de tudo e lutar contra o preconceito. E já havia provado vinhos que me surpreenderam. Mas às vezes duvidava de mim mesmo como avalista/avaliador de alguns dos quais gostei.
E esse passeio, que incluiu a visita a uma dezena de vinícolas, entre grandes e pequenas – afora uma deliciosa estada num hotel-spa – me convenceu de que minha percepção anterior estava correta. Fiquei muito bem impressionado com a qualidade e a seriedade das vinícolas. Todas muito bem estruturadas, com equipamento moderno e investimentos para fazer vinhos de primeira qualidade, à altura dos melhores importados.
As degustações, claro, foram o ponto alto da brincadeira. Aproveitei para comprar algumas garrafas dos vinhos que mais gostei e que, ali direto nas vinícolas, saem por preço bem menor do que eu encontraria aqui em São Paulo. Dei preferência àqueles de vinícolas menores (boutiques) e menos conhecidas, muitos deles difíceis de encontrar aqui. E deixo aqui algumas dicas de bons vinhos que ainda não conhecia e que me impressionaram e também a outros visitantes que fizeram o tour comigo. Indico, entre eles, um vinho de uva Ancellotta (variedade proveniente da Itália), que nunca havia provado –me surpreendeu o seu toque aveludado na boca e sabor agradável. Indico ainda dois espumantes, porque as vinícolas da Serra Gaúcha têm se desenvolvido bastante na elaboração desse tipo de vinho. Vale a pena provar:

Tintos
Dom Laurindo Reserva Ancellotta 2006 ( Vinícola Don Laurindo): harmoniza com pratos bem condimentados, entre eles carnes vermelhas e caças, além de queijos fortes.
Reserva Syrah Safra 2010 (Vinícola Almaúnica): harmoniza bem com massas, peixes e carnes pouco condimentadas.

Espumantes
Vinho branco espumante Nature (Vinícola Adolfo Lona): acompanha bem aperitivos e refeições à base de pratos frios, peixe e carnes branca.
Ponto Nero Moscatel (Vinícola Domno do Brasil): vai bem com peixes e carnes brancas pouco condimentadas, além de sobremesas.

Saúde!
Patrício

O preço do vinho não diz tudo

21 de junho de 2012

Caros amigos do vinho,

Desculpem-me por ter ficado ausente nas últimas semanas. Um problema de saúde, nada grave, me impediu de pensar em vinho e preferi me abster de escrever.

Volto agora, depois de já ter podido voltar a algumas taças, para falar de um “vício” que acompanha tanto os apreciadores não-especialistas, como eu, como também os especialistas. Trata-se de entender o preço na prateleira como indicador inquestionável da qualidade do vinho. E aproveito para me inspirar no interessante artigo publicado aqui no V de Vinho, que reproduziu texto de Matt Kramer, do Wine Spectator.

Nas minhas idas e vindas pelas coisas do vinhos nos últimos anos constatei que o preço que se cobra pelo rótulo tem às vezes mais a ver com a negociação que um comerciante faz com o distribuidor do que da qualidade e custos de produção propriamente ditos. Também podem pesar o câmbio, no momento da importação, que joga o preço pra baixo ou pra cima.

Lembro que há algum tempo fui ao supermercado disposto a comprar um Carménère chileno – que é um tinto suave, para acompanhar massas não muito picantes, por exemplo – não disposto a gastar mais de 40 reais pela garrafa. E fiquei alguns instantes diante da prateleira com dois candidatos: um que estava em promoção, por 32 reais, e outro por 42. Li as descrições do rótulo, logicamente muito elogiosas, e embora meu bolso pedisse o mais barato sucumbi à “informação” do preço mais alto. “Se é 10 reais mais caro, deve ser porque foi 10 reais mais bem feito”, pensei ao romper em 2 reais o meu limite orçamentário.

Foi de fato um bom vinho e acompanhou bem o prato que fizemos em casa. Mas tempos depois, em restaurante, me deparo com os mesmos dois vinhos com posições de preços invertidas. Eis a questão: quem estava errado, o supermercado ou o restaurante? No restaurante, como os preços estivessem altos demais para os gastos daquele momento, preferi outras opções. Mas em seguida voltei ao supermercado para rechecar os preços. No que eu havia comprado na primeira vez já não estavam os dois e um deles, o mais barato, já sem promoção, custava 37 reais. Fui em outro supermercado e encontrei os dois por 35 reais ambos. Comprei as duas garrafas e fiz uma seção de degustação com um casal amigo dias depois.

Todos ali eram apreciadores não especialistas como eu. E as opiniões variaram. Eu preferi, sem muita convicção, aquele escolhido pelos 10 reais a mais. Meu amigo e a esposa gostaram mais do que eu havia rejeitado na primeira vez. Minha mulher gostou dos dois, embora tenha percebido diferença entre eles.

Moral da história, como disse o Matt Kramer: há boas pechinchas entre os vinhos de todas as procedências e o preço alto às vezes não indica qualidade. Ou como repete sempre o principal crítico de vinhos do mundo, o americano Robert Parker: nenhum vinho pode valer intrinsecamente mais do que 100 dólares – porque nem aquele que tem os custos mais altos supera esse teto de valor, margem de lucro incluída (claro que o valor não tangível de um rótulo dos sonhos pode ir muito além disso, mas esse é o preço do desejo do consumidor, não do que aquela bebida de fato vale).

Ponderação feita, volto ao meu exemplo inicial para concluir que, na próxima vez, na dúvida, vou levar para casa o mais barato e não o mais caro.

Um brinde,

Patrício

Vinho quente não dá!

20 de maio de 2012

Aro de inox: inscrições que ajudam a chegar à temperatura ideal

Amigos do vinho,
Comento hoje algo que é muito simples, mas que eu em minhas incursões para tentar aprender o melhor jeito de saborear um bom vinho mantive dúvidas por muito tempo. Trata-se da temperatura ideal para os vários tipos de vinho.
Como contei a vocês, foi numa viagem a Buenos Aires que comecei a me interessar pela bebida, meio por acaso, porque um amigo tinha me recomendado tomar “um bom malbec”.
Lembro-me que nos dias daquela viagem fazia bastante frio por lá. E me lembro como se fosse hoje que os garçons que nos atendiam e às vezes nos orientavam repetiam que os vinhos tintos deviam ser tomados à temperatura ambiente – lá costumam dizer, alias, “vino del tiempo”, para ressaltar para o garçom que não querem garrafas resfriadas.
Ali, com o frio, as garrafas vinham com bebida realmente a temperatura agradável. Mas quando voltamos ao Brasil eu percebi que em alguns restaurantes e mesmo em casa o vinho à temperatura ambiente parecia quase morno. Foi numa degustação de uma vinícola brasileira da qual participei cerca de um ano depois que obtive as respostas.
A temperatura ideal para o vinho tinto, que é o que mais consumo, é ao redor de 16 a 17 graus. Para os brancos e rosados, entre 7 e 10 graus é o mais adequado. E isso é obtido facilmente com aquelas pequenas adegas parecidas com geladeirinhas. Ainda não tenho uma, mas estou providenciando. O que já comprei foi um termômetro que ajuda a checar se o nível de temperatura está ok.
Há muitos modelos no mercado e os tradicionais, de enfiar na garrafa, podem custar menos de 10 reais. Preferi um que não invadisse o líquido – embora os especialistas não vejam inconveniente, se ele estiver limpo e seco. O que tenho é uma espécie de tiara larga de inox, termo-sensível que abraça a garrafa na parte mais gorda, onde se concentra a bebida, e indica a temperatura – ele mesmo tem indicações de quanto cada tipo de vinho deve estar resfriado. Paguei em torno de 20 reais. Há outros modelos mais caros, como um que se parece a um relógio, que também envolve a garrafa.
O desafio para quem não adega refrigerada, como eu, é alcançar a temperatura mais adequada. Claro que isso não precisa ser rígido. Mas eu decididamente não gosto de vinho “quente” – a não ser aqueles das festas juninas, que são outra coisa.
Ocorre que não é aconselhável resfriar o vinho abruptamente, principalmente o tinto. Então, é preciso que o local onde os vinhos estejam guardados seja o mais fresco da casa. Porque, daí, mesmo em dias muito quentes, a tendência é que o vinho não passe muito os 20 graus. Nesse caso, levar a garrafa para resfriar na geladeira não agride as propriedades de sabor da bebida.
Tenho usado essa estratégia – os vinhos que guardo ficam dentro de um baú de madeira, encostado uma parede interna da sala de jantar, longe do sol que entra pelas janelas, do calor da cozinha ou de aparelhos eletroeletrônicos. Dessa forma, mesmo em dias quentes, com 20 minutos na geladeira ele alcança os 16 ou 17 graus.
Para os brancos e rosados, é preciso deixar bem mais, claro. Mas nunca uso o esfriamento brusco do freezer, por recomendação do especialista da degustação a que me referi. Ele explicou que há traços do sabor, principalmente nos tintos, que se perdem, se o vinho passar por um choque de temperatura, ou for resfriado demais.
Deixo esta como a minha dica da semana,
Saúde!
Patrício

Restaurante caro e a meia garrafa

5 de maio de 2012

Não precisa ser especialista para perceber que o preço do vinho na maioria dos restaurantes de São Paulo é muito caro. Basta ver quanto custa uma garrafa de vinho no supermercado ou lojas especializadas e notar que o preço do varejo normalmente dobra nas cartas de restaurantes.
Além disso, como escrevi no meu blog de estréia, comecei a me interessar por vinho durante uma viagem à Argentina, em que eu e minha mulher passamos a olhar as cartas com maior curiosidade. E a comparação simples deixa claro como em Buenos Aires, por exemplo, a margem que os restaurantes impõem aos vinhos é bem menor do que aqui.
Não vou entrar no mérito dos motivos que levam a isso, se apenas a sede dos empresários em faturar o máximo ou do vilão de sempre, os impostos, que no Brasil são mesmo altos e eternamente usados como justificativa para preços abusivos. Vou relatar apenas o artifício que tenho usado para me defender, sem perder o prazer de saborear um bom vinho quando vou ao restaurante.
Simples e fácil: se ao abrir a carta você perceber que garrafas que no supermercado custam 20 a 30 reais estiverem entre 40 e 60, procure as meias garrafas. Para os vinhos tintos, que não são o tipo de bebida para tomar aos litros, a dose de 375 ml normalmente serve bem uma pessoa ou, dependendo de quanto se vai comer, até um casal. E é possível achar vinhos razoáveis por menos de R$ 35,00.
Ok, alguns dirão: talvez na meia garrafa a margem seja ainda mais abusiva. Mas por que pagar R$ 50 por uma garrafa, que você certamente não vai consumir integralmente, se se pode pagar R$ 30 pela meia? E quando os restaurantes não têm a meia garrafa – ou pelo menos não têm do vinho que você gostaria — há ainda a possibilidade do vinho em taça (nesse caso, a dose em geral é de 150 ml), na qual se paga entre R$ 15 e R$ 20 para o mesmo padrão de vinho.
Você vai pagar mais por mililitro consumido, mas para a conta final esses vinhos vão representar bem menos e isso é o que importa. Além disso, o vinho em doses menores permite variar na harmonização com pratos diferentes, em caso de uma refeição mais prolongada. Para uma entrada de mariscos ou uma salada Caesar, por exemplo, pode-se optar por meia garrafa de branco fresco, deixando o tinto para o prato de fundo, que pode ser uma carne vermelha, por exemplo. Dessa forma, haverá melhor harmonia do que se todo o jantar fosse regado apenas com um tinto – nada adequado para os primeiros pratos sugeridos.
Essa é a minha dica, aprendida a partir da sugestão de um sommelier num restaurante já há mais de um ano. Desde então, quando estou apenas com a minha mulher, tenho feito isso. É o jeito de não perder o prazer de tomar vinho, apesar das margens leoninas dos restaurantes.
Salud!

Patrício Alvino

Ousei com o bacalhau e me dei bem

24 de abril de 2012

Outro dia, mais precisamente durante a Semana Santa, fui com minha mulher a um restaurante português. A intenção era comer um bom bacalhau acompanhado de um bom vinho. E aproveitaria para exercitar a atividade de blogueiro dedicado a desvendar o universo de Bacco, a aventura que recém comecei neste espaço. Minha mulher também está empenhada neste exercício de aprendizado sobre vinho, embora ela ainda seja mais dos sucos de frutas e bebidas alcoólicas docinhas.

Bem, voltando ao bacalhau, um prato que sempre apreciei e que, como o vinho, tem as suas peculiaridades, decidi que queria acompanhá-lo com um vinho correto (se é que isso existe). Eu tinha lido aqui no V de Vinho uma entrevista do Marcelo Copello, um dos jornalistas brasileiros mais importantes do mundo do vinho, dando dicas sobre bons vinhos para acompanhar o bacalhau.

Uma coisa que ele falou é que não dá para pensar no bacalhau como peixe na harmonização com vinho, porque trata-se de prato de sabor intenso e que pede vinhos de bom corpo, como um tinto malbec. Já comi bacalhau acompanhado (pasmem!) de caipirinha, de cerveja (como bom cervejeiro que fui) e de vinho de mesa (aquele de garrafão). Confesso que não me lembro se essas experiências foram boas ou ruins – acho que não estava preocupado com isso –, mas seguramente em algumas delas a bebida “matou” o sabor do bacalhau e, em outras, o bacalhau deve ter “escondido” o sabor da bebida. Escolhemos, minha mulher e eu, um restaurante especializado no prato e reconhecidamente bom.

Não havia erro quanto ao bacalhau. Apenas ficamos um pouco em dúvida, ao olhar o cardápio, se pediríamos um bacalhau à moda de Braga ou a Gomes Sá, ou ainda algum outro tipo, todos eles sugestivos e aparentemente apetitosos. Finalmente, escolhemos postas de bacalhau acompanhadas de brócolis. Como sempre tenho feito desde que decidi enveredar pelo mundo do vinho, pedi ao maître sugestão da bebida para acompanhar o prato escolhido e me ocorreu o malbec, conforme a matéria que tinha lido. A resposta: “Pode ser um vinho Verde [típico de Portugal, a terra do bacalhau por excelência], um cabernet sauvignon ou um carménère [recentemente soube que é uma das uvas símbolo do Chile]…”

Perguntei sobre malbec e o restaurante não tinha. Achei instigante provar o carménère, que tinha sido definido como vinho de boa intensidade, mas não muito tânico (que é quando o vinho amarra a boca). Achei que combinaria bem com o bacalhau pedido. Minha mulher me acompanhou e acertamos. O carménère mostrou-se um vinho fácil de beber, mais suave que um cabernet sauvignon e o próprio malbec, mais próximo de um merlot. E caiu perfeitamente com o delicado bacalhau em postas com brócolis.

Me surpreendi positivamente e, depois, ao pesquisar na internet sobre a harmonização entre carménère e bacalhau, me chamou a atenção como poucos especialistas ainda sugerem o casamento.

Na segunda-feira seguinte, como é de praxe, os comentários sobre o feriado rolaram na rodinha do escritório. Contei minha experiência, embora saiba que alguns ainda torçam o nariz quando surge um comentário sobre vinho – sei, porque eu também era assim antes de começar a provar com prazer a bebida e de descobrir que não precisa ser um expert para apreciá-la.

Um colega também apreciador de vinhos questionou a combinação que fizemos, defendendo que os vinhos portugueses – inclusive os tintos – são os que melhor sabem acompanhar o bacalhau. Claro que são, mas essa é uma visão tradicional e conservadora que tenta apenas não errar. No final,  o convenci a ousar pelo menos uma vez e a provar essa nossa descoberta. Ele sabe que eu escreveria sobre isso e aceitou o desafio de depois contar como se saiu.
A lição que tirei disso foi que no mundo do vinho há espaço para testes e, a partir disso, grandes descobertas. O vinho não pode roubar o sabor do prato, deve completá-lo – e vice-versa. É preciso tomar alguns cuidados mínimos para não gastar com um vinho claramente impróprio para determinado prato.

Talvez não sejam todos os malbec (a uva marca registrada argentina) e os carménère (uva característica chilena) que combinem com pratos de bacalhau – que igualmente são variados em graduação de sabor e tempero. Mas atesto que naquela minha refeição, o típico chileno caiu como uma luva. E como “desespecialista”, recomendo.

E aí me veio a máxima ouvida numa entrevista do superenólogo francês Michel Rolland: “O melhor vinho é aquele que você toma e gosta.”

Saúde!
Patrício

PS: Gerson, obrigado pela leitura. E as degustações estão na minha alça de mira para posts futuros. Abraço.

Por que aprender sobre vinho?

5 de abril de 2012

Em Buenos Aires, a descobertaO meu interesse por saber sobre vinho nasce simplesmente de uma mudança em meus hábitos de consumo: tenho cada vez mais optado pela bebida, tanto em casa como nos restaurantes. Leia o resto deste post »